Sinopse do episódio
Nesta primeira temporada do podcast Psicanálise Conectada, a psicanalista Mônica Godoy e o psicanalista Janilton Gabriel de Souza conversam sobre a formação e como se tornar um psicanalista.
Este é o primeiro episódio gravado de forma on-line, o piloto do que se consolidaria depois. Na conversa entre os dois psicanalistas você escutará o que fez Janilton e Mônica escolherem o oficio [estranho] de psicanalista.
Frases de destaque
“Para ser um bom [psicanalista] analista, a pessoa precisa se dispor a entrar no outro como um país estrangeiro, com uma língua estrangeira e histórias que aguçam a curiosidade.”
“Não considerar absolutamente nada, nenhuma fala de nenhuma pessoa, como familiar — no sentido do ‘já sei’.”
“O trabalho da análise é um convite para uma aventura guiada por um desejo verdadeiro de saber e um dizer ‘sim’ ao novo e ao desafio.”
TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO:
Locutor – Léo Correa – 0:00:01
Você vai ouvir agora Psicanálise Conectada, com Janilton Gabriel de Souza e Mônica Godoy.
Janilton Gabriel de Souza – 0:00:21
Olá, sejam bem-vindos. Começamos, a partir de agora, o Psicanálise Conectada. Comigo, Janilton Gabriel de Souza, e com ela, minha queridíssima, Mônica Godoy. Mônica, você que abre esse episódio, então.
Mônica Godoy – 0:00:37
É, Janilton, hoje eu que te chamo, bem. Então, eu sou a Mônica Godói, eu sou psicanalista e analista ambiental, e estou aqui querendo saber para você, Janilton, que também é um psicanalista, me diga aí o que é para você ser um bom analista, o que precisa fazer para ser um bom analista?
Mônica Godoy – 0:01:05
Me conta aí como é que você veio parar nesse galho.
Janilton Gabriel de Souza – 0:01:09
Pois é. Essa é uma pergunta, uma dedução de uma história, eu acho, de todos nós. A mim, eu acho que passa um pouco pela experiência primeira de paciente. Sim.
Janilton Gabriel de Souza – 0:01:24
Eu acho que dá para ser, como eu costumo brincar, dá para ser psicólogo sem ter feito terapia, psicoterapia, mas não dá para ser analista sem ter passado pela experiência de paciente.
Mônica Godoy – 0:01:38
Certamente. Sim.
Janilton Gabriel de Souza – 0:01:40
Que é um negócio, um troço doido, não é, Mônica? Que a gente passa por isso e, de repente, a gente quer sair também do divã para ir para trás dele, para também conduzir outras aventuras.
Janilton Gabriel de Souza – 0:01:59
Porque eu acho que o trabalho da análise, eu tenho pensado que ela é um convite para uma aventura. Eu sei que você é muito aventureira, não é, Mônica?
Mônica Godoy – 0:02:10
Ou eu sou demais. Quer dizer que você acha que para ser um bom analista, a primeira coisa é gostar de aventura?
Janilton Gabriel de Souza – 0:02:17
Eu acho, né? Eu acho que não é uma aventura qualquer, né? Porque, assim, tem aventuras e aventuras. Eu acho que da psicanálise, eu aprendi, pelo menos com ela, que uma boa aventura, a gente quer conhecer principalmente as coisas que são, às vezes, deixadas de lado, que ficam, às vezes, na sarjeta.
Janilton Gabriel de Souza – 0:02:42
Ou seja, eu acho que um ingrediente fundamental é o interesse, o querer saber sobre. Eu acho que isso é o que nos move, porque cada coisa nos desperta atenção, a gente quer escutar, a gente quer saber, que a gente quer entender a lógica que está inscrevendo e escrevendo, talvez, aquilo.
Janilton Gabriel de Souza – 0:03:08
E para você, Mônica, o que você pensa?
Mônica Godoy – 0:03:11
Pois é, estou aqui te escutando e concordo. Para mim, Janilton, para ser um bom analista, antes de mais nada, eu acho que a pessoa precisa… Claro, tem uma resposta, assim, mais dentro do formato, vamos dizer assim, né?
Mônica Godoy – 0:03:29
Que eu vou até falar, mas não é isso. Tá, para ser um bom analista, precisa ter feito um bom processo de análise, estar fazendo, ou já tem. Ter concluído, ou estar em andamento. Precisa de fazer uma boa supervisão, ou ter feito, ou continuar a fazer.
Mônica Godoy – 0:03:47
Precisa de uma boa formação teórica, acadêmica, de estudos, tarará. Mas não é disso que nós estamos falando aqui, né? Afinal de contas, não é uma aula, é um podcast bem divertido. Então, para mim, cara, você sabe que para ser um bom analista, sabe o que eu acho?
Mônica Godoy – 0:04:04
Que a pessoa precisa gostar de viajar. Por quê? Porque eu acho que quando você gosta de viajar, um bom viajante… Então, vou resumir assim, para ser um bom analista, precisa de ser um bom viajante.
Mônica Godoy – 0:04:22
Por quê? Primeiro, um bom viajante, ele sai da própria casa, sai de verdade, e se dispõe a entrar no país estrangeiro e tomar o outro, né, o analisando.
Mônica Godoy – 0:04:37
Quem está ali na sua frente. Como um país estrangeiro, como uma língua estrangeira, com costumes que não são os seus, com histórias que te aguçam a curiosidade. É tão interessante, né, pensar por aí.
Mônica Godoy – 0:04:54
Eu acho que um bom analista tem que gostar de viajar. Então, ele tem que gostar de sair da própria casa, tem que estar esvaziado de si. Sabe esse trem do povo que viaja e leva Guaraná e Pão de Queijo? Porque não come outra coisa que não a própria comida?
Mônica Godoy – 0:05:10
Que preguiça que eu tenho disso. Então, vai lá para o Japão. Em vez de comer lá os sushis maravilhosos, as algas todas, não. Fica caçando, cadê arroz, feijão e batata frita, né? E acaba no McDonald’s, que preguiça, né?
Mônica Godoy – 0:05:27
Então, para ser um bom analista, precisa de gostar de viajar. De se alimentar desse estrangeiro que é o outro. Isso, inclui, assim, uma curiosidade, né? o respeito, o verdadeiro interesse por essa terra estrangeira.
Mônica Godoy – 0:05:46
E é muito complicado quando o analista acha que o outro, o analisando, já está como uma casa familiar, né? Uma cidade familiar, já sei. Ah, isso aí é um problema. Então, um bom analista está sempre viajando em terras estrangeiras.
Mônica Godoy – 0:06:05
E eu acho que eu adoro viajar justamente com essa interseção, sabe? Como o meu ofício de analista me leva para esse lugar de viajante.
E eu adoro as duas coisas, viu? O que você acha disso? Faz sentido para você?
Janilton Gabriel de Souza – 0:06:27
Nossa, faz demais. Eu acho que essa ideia da viagem, dessa aventura… Eu trouxe a palavra aventura porque aventura… A aventura também me lembra, essa disposição e uma abertura para viver aquilo na pele.
Janilton Gabriel de Souza – 0:06:47
Para sentir isso na pele. Então, acho que é boa a viagem, né, como você mesmo colocou. Eu até me lembrava, a gente estava comentando de uma perto aqui que nós fizemos. E como foi magnífica, assim, porque fomos conhecer…
Janilton Gabriel de Souza – 0:07:04
Conhecer um lugar junto com a nossa professora de alemão. Ela também não conhecia, então fomos juntos conhecer. Depois encontramos uma outra amiga muito querida. E aí ela falou, ah, tem um lugar aqui, uma feira de artesanato que está acontecendo.
Janilton Gabriel de Souza – 0:07:23
Vocês topam de vir e a gente topamos. Eu acho que é isso que é a boa aventura, a boa viagem. É claro. Claro, às vezes você tem alguns lugares que você quer de cabeça, porque já te falaram muitas vezes. Você quer conhecer.
Janilton Gabriel de Souza – 0:07:40
Mas essa abertura para conhecer ali o que também estão te propondo. Exato. Às vezes um lugar que… Ah, esse lugar não é muito conhecido. Me leva lá. Eu acho que… Eu acho que essa disposição…
Mônica Godoy – 0:07:56
Isso. Ela
Janilton Gabriel de Souza – 0:07:57
É fundamental. Eu concordo com você.
Mônica Godoy – 0:08:00
Então, ótimo. Então, nós dois aqui… Hoje, dizendo que para ser um bom analista, a gente precisa, primeiro de tudo, de ter na escuta do outro uma aventura. Um gosto de aventura.
Mônica Godoy – 0:08:16
E essa aventura guiada por um desejo verdadeiro de conhecer, de saber, de uma curiosidade, um respeito, uma coisa assim de deixa eu ver como é que isso aqui é.
Mônica Godoy – 0:08:31
Um dizer sim. Que é o novo, né? Que é o desafio que se apresenta, né? Cada pessoa que senta ali na sua frente, de verdade, ela é uma cidade estrangeira. Estrangeira para ele próprio, que dirá para você, como analista, né?
Mônica Godoy – 0:08:47
Exato. Ai, eu, Janito, gostei do que nós falamos. Um trem poético, cara. Esse trem podia estar sendo gravado, hein?
Janilton Gabriel de Souza – 0:08:57
Não é? Muito bom. Eu acho que você trouxe um ponto aí legal, né? Dessa ideia da cidade, né? Porque às vezes a gente pode achar, porque eu já fui, né, você aí que… Belo Horizonte. Eu conheço tudo de Belo Horizonte. Mentira.
Janilton Gabriel de Souza – 0:09:12
Você conhece alguns lugares, e mesmo no lugar que a gente habita…
Mônica Godoy – 0:09:18
Sim. Uma vez eu tive uma experiência fantástica com isso. Eu tenho um grande amigo que é de Barcelona. E uma vez ele veio me visitar, e aí eu tive que ficar uns dias trabalhando até a gente chegar na data de… Viajarmos.
Mônica Godoy – 0:09:33
E a gente tinha uma viagem super, assim, europeu no Brasil, década de 90, aquilo. Então a gente ia, sei lá, para Pantanal, Rio de Janeiro, os cartões postais. E daí eu falei para ele, escuta, tinha, assim, uns cinco dias que eu ainda teria que estar em Belo Horizonte.
Mônica Godoy – 0:09:51
Ele antecipou a vinda e eu tinha um trabalho. E eu disse para ele aqui, deixa eu fazer um roteiro para você, as cidades históricas, né? Ouro Preto, Tiradentes, São João del Rey. É, ou então aqui, Gruta da Lapinha, nananã. Para você não perder seu tempo.
Mônica Godoy – 0:10:07
E ele me disse, não, eu quero ficar em Belo Horizonte. Eu falava, pelo amor de Deus, não faz isso não. Você vai gastar seu tempo com Belo Horizonte? Isso não. Ele falou, Mônica, mas vai ser ótimo, nós vamos almoçar junto, outro dia. Final do trabalho a gente vai jantar junto.
Mônica Godoy – 0:10:25
E para mim está de boa. Aí eu fiquei com a maior culpa dele gastar o tempo dele no sujeito que mora em Barcelona, com tanto gaudi. Com tanto gaudi para todo lado, né? Então, gastar o tempo dele em Belo Horizonte. Ele era fotógrafo. Um tempo depois, sei lá, um ano depois, eu fui a Barcelona ir para uma exposição de fotografias dele.
Mônica Godoy – 0:10:45
E ele estava fazendo uma exposição super premiada. E daí cheguei eu lá na exposição, fotos lindas, maravilhosas. E ele fotografava a arquitetura em detalhes. Então, cada detalhe muito sensível, muito legal.
Mônica Godoy – 0:11:00
Cada recorte ótimo. Daí eu disse para ele, aí, tá vendo? A pessoa fica aí com essa quantidade de coisa legal na vida fotografando. Ainda vai gastar tempo em Belo Horizonte. Ele me pegou pelo braço e falou assim, olha aqui de onde que são essas fotos.
Mônica Godoy – 0:11:16
Todas de Belo Horizonte. Quase morri, né? Enfiei a viola no saco, porque eu não conhecia nenhuma. E daí fui reconhecendo, ah, naquele lugar, ah, naquele outro. Então, é isso. Eu acho que é uma outra coisa para ser um…
Mônica Godoy – 0:11:32
Um bom analista, é isso. Não considerar absolutamente nada, nada, nenhuma fala de nenhuma pessoa como familiar. No sentido de já sei e nem tenho interesse. É por isso que eu acho que a gente pode resumir a nossa conversa hoje com a palavra que você trouxe.
Janilton Gabriel de Souza – 0:11:54
A aventura. E eu acho que é uma coisa até perigosa, né? Quando a gente acha que a gente já sabe. É o que você colocou. A gente deixa de escutar. Não tem mais o que saber. Sendo que se a gente parte do lugar que a gente não sabe.
Janilton Gabriel de Souza – 0:12:13
E que não é… Sempre nos é infamiliar. Sim. Também. E ao mesmo tempo familiar. Mas que tem nuances que a gente não conhece. Acho que isso nos move.
Mônica Godoy – 0:12:25
Exatamente. Perfeito, Janito. Adorei nosso segundo podcast. Então, ó. Hoje. Nós conversamos e Mônica Godoy e Janito, como é que é o seu sobrenome, Janiton?
Mônica Godoy – 0:12:39
Pronto. Eu ia falar assim, o de Souza eu já sei, mas no meio do caminho tinha um que eu tinha escrito. Então, Janilton Gabriel de Souza e Mônica Godoy, Mônica Martins de Godoy Fonseca, meu nome é uma frase. Hoje nós conversamos e pra ser um bom analista, o que que você precisa?
Mônica Godoy – 0:12:59
E a gente concluiu que a gente precisa, pra ser um bom analista, pra ser um bom analista, precisa de gostar da aventura e tomar o outro que está à sua frente como uma cidade estrangeira. E escutar com muito respeito e com muita curiosidade tudo que vem de lá.
Mônica Godoy – 0:13:16
Delícia, hein, Janilton?
Janilton Gabriel de Souza – 0:13:18
Que aventura, né? Que quem está nos escutando fique com uma sede, com uma vontade de seguir com a gente essa aventura no próximo episódio.
Mônica Godoy – 0:13:29
Eba! E no próximo episódio nós vamos continuar essa aventura. Essa conversa pelo outro lado da moeda. Tchau, Janilton. Boa viagem.
Janilton Gabriel de Souza – 0:13:38
Boa viagem, Mônica. Boa viagem a você que nos acompanhou até aqui.
Mônica Godoy – 0:13:42
Eba!
Locutor – Léo Correa – 0:14:08
Você ouviu Psicanálise Conectada com Janilton Gabriel de Souza e Mônica Godoy.


